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quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Tempo

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Vida/tempo (Viviane Mosé)

Quem tem olhos pra ver o tempo?

Soprando sulcos na pele soprando sulcos na pele

Soprando sulcos?

O tempo andou riscando meu rosto

Com uma navalha fina.

Sem raiva nem rancor

O tempo riscou meu rosto com calma.

Eu parei de lutar contra o tempo. Ando exercendo instante.

Acho que ganhei presença.

Acho que a vida anda passando a mão em mim. Acho que a vida anda passando.

Acho que a vida anda. Em mim a vida anda. Acho que há vida em mim. A vida em mim anda passando. Acho que a vida anda passando a mão em mim

Por falar em sexo quem anda me comendo

É o tempo. Na verdade faz tempo, mas eu escondia

Porque ele me pegava à força, e por trás.

Um dia resolvi encará-lo de frente e disse: Tempo, se você tem que me comer Que seja com o meu consentimento. E me olhando nos olhos. Acho que ganhei o tempo. De lá pra cá ele tem sido bom comigo. Dizem que ando até remoçando.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Outra do Drummond

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Mãos Dadas.

Não serei o poeta de um mundo caduco.

Também não cantarei o mundo futuro.

Estou preso à vida e olho meus companheiros.

Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.

Entre eles, considero a enorme realidade.

O presente é tão grande, não nos afastemos.

Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

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Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,

não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,

não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,

não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.

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O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,

a vida presente.
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Paciente da Maternidade Odete Valadares, FHEMIG, minutos antes de ser operado
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sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Adélia Prado

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Minha mãe achava estudo a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,ela falou comigo:
“Coitado, até essa hora no serviço pesado”.
Arrumou pão e café , deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.



Inspirado pela Moça dos Três Desenhos!

terça-feira, 4 de agosto de 2009

"Coletânea Ufanista" ou "Quem puxa aos seus não esvaece"...

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Canção do Exílio
Gonçalves Dias
...
Não permita Deus que eu morra,
sem que eu volte para lá;
sem que desfrute os primores
que eu não encontro por cá,
...

Canto Mineral
Carlos Drummond de Andrade
...
Minas orgulhosa
de tanta riqueza,
endividada
de tanta grandeza
no baú delida.
Cada um de nós, rei
na sua fazenda,
...
Minas, oi Minas,
tua estranha sina
delineada
ao bailar dos sinos,
ao bailar dos hinos
de festins políticos,
Minas mineiral
Minas musical
Minas pastorela
Minas Tiradentes
Minas liberal ...
Minas que te quero
Minas que te perco
e torno a ganhar-te ...




Confidência do Itabirano
Carlos Drummond de Andrade
...
Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!

Garoto
Vladimir Maiakoviski

Fui agraciado com o amor sem limites.
Mas, quando garoto,
a gente preocupada trabalhava
eu escapava
para as margens do rio Rion
e vagava sem fazer nada.
...
Sem o peso da camisa,
sem o peso das botas,
de costas ou de barriga no chão,
torrava-me ao sol de Kutaís
até sentir pontadas no coração.
O sol se assombrava:
“Daquele tamaninho
com um tal coração!
Vai partir-lhe a espinha!
Será que cabem
nesse tico de gente
rio,
o coração,
eu
e cem quilômetros de montanhas?”


A seguir, "outro" cataguasense dileto: o cineasta Humberto Mauro! O videoclipe é "A Velha a Fiar" (1964). Nele a música é executada pelo Trio Irakitã.
O filme é considerado o primeiro videoclipe brasileiro!

Link para a página de Cataguases no Wikipedia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Cataguases

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

O Verbo Beligerante

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Poesia Visual: Rodrigo Ferreira

FALA
(Orides Fontela)

Tudo
será difícil de dizer:
a palavra real
nunca é suave.

Tudo será duro:
luz impiedosa
excessiva vivência
consciência demais do ser.

Tudo será
capaz de ferir. Será
agressivamente real.
Tão real que nos despedaça.

Não há piedade nos signos
e nem o amor: o ser
é excessivamente lúcido
e a palavra é densa e nos fere.

(Toda palavra é crueldade.)
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O Lutador
(Carlos Drummond de Andrade)
Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.
São muitas, eu pouco.
Algumas, tão fortes
como o javali.
Não me julgo louco.
Se o fosse, teria
poder de encantá-las.
Mas lúcido e frio,
apareço e tento
apanhar algumas
para meu sustento
num dia de vida.
Deixam-se enlaçar,
tontas à carícia
e súbito fogem
e não há ameaça
e nem há sevícia
que as traga de novo
ao centro da praça.

Insisto, solerte.
Busco persuadi-las.
Ser-lhes-ei escravo
de rara humildade.
Guardarei sigilo
de nosso comércio.
Na voz, nenhum travo
de zanga ou desgosto.
Sem me ouvir deslizam,
perpassam levíssimas
e viram-me o rosto.
Lutar com palavras
parece sem fruto.
Não têm carne e sangue
Entretanto, luto.

Palavra, palavra
(digo exasperado),
se me desafias,
aceito o combate.
Quisera possuir-te
neste descampado,
sem roteiro de unha
ou marca de dente
nessa pele clara.
Preferes o amor
de uma posse impura
e que venha o gozo
da maior tortura.

Luto corpo a corpo,
luto todo o tempo,
sem maior proveito
que o da caça ao vento.
Não encontro vestes,
não seguro formas,
é fluido inimigo
que me dobra os músculos
e ri-se das normas
da boa peleja.

Iludo-me às vezes,
pressinto que a entrega
se consumará.
Já vejo palavras
em coro submisso,
esta me ofertando
seu velho calor,
outra sua glória
feita de mistério,
outra seu desdém,
outra seu ciúme,
e um sapiente amor
me ensina a fruir
de cada palavra
a essência captada,
o sutil queixume.
Mas ai! é o instante
de entreabrir os olhos:
entre beijo e boca,
tudo se evapora.

O ciclo do dia
ora se consuma
e o inútil duelo
jamais se resolve.
O teu rosto belo,
ó palavra, esplende
na curva da noite
que toda me envolve.
Tamanha paixão
e nenhum pecúlio.
Cerradas as portas,
a luta prossegue
nas ruas do sono.

terça-feira, 1 de julho de 2008

O Grito

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O Grito ("Skrik") é uma pintura do noruegues Edvard Munch, datada de 1893. A obra representa uma figura andrógina em um momento de profunda angústia e desespero existencial. O pano de fundo é a doca de Oslofjord (em Oslo) ao pôr-do-Sol. O Grito é considerado como uma das obras mais importantes do movimento expressionista e adquiriu status de ícone cultural.
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Olho o futuro
e minhas costas coçam.
Mesmo ultrapassado o muro
As lembranças me alcançam.
...
...
A saudade é esquisita:
É defunta, mas ainda anda por aí.
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quinta-feira, 5 de junho de 2008

Quadrilha - Drummond

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Museu Rodin, novembro de 2004 .
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João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.
Drummond

domingo, 20 de abril de 2008

Admoestação

. Escultura na frente do Forum Romano (março de 2007)
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Admoestação Melancólica

Meu caro,
Não devias prezar tanto assim o humano do ser.
Pessoas são rasas
e como tal deves tratá-las.
O interpessoal é ignóbil.
O âmago é desprovido de ornatos.
Não imputes tanta esperança...
Tamanho crédito somente à essência tua
que solitária, introspectiva deveria ser.

Cerques as expectativas.
Decerto serão magnânimas, mas sem objeto.
Não almejes amor ou razão,
virtudes ou beleza.
Anseies por nada.
Renuncies romantismo, pureza.
Invistas apenas na amizade
- Esta tábua de salvação neste mundo torpe.
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quarta-feira, 16 de abril de 2008

Olhos Azuis

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Ai, Jesus! Não vês que gemo,
Que desmaio de paixão
Pelos teus olhos azuis?
Que empalideço, que tremo,
Que me expira o coração?

Ai, Jesus! Que por um olhar, donzela,
Eu poderia morrer
Dos teus olhos pela luz?
Que morte! Que morte bela!
Antes seria viver!

Ai, Jesus! Que por um beijo perdido
Eu de gozo morreria
Em teus níveos seios nus?
Que no oceano dum gemido
Minh'alma se afogaria?

Ai, Jesus!
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Dois "Blue Eyes Links"!!! Da melhor qualidade!!!

quinta-feira, 10 de abril de 2008

O Dono da Nona!

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Criaram a beleza!
Crua, complexa, inimitável.
Plena de perfeição e destreza.
Alguns certamente vão para o céu.
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quinta-feira, 3 de abril de 2008

Loucura - Uma homenagem...

Quixote e Sancho, de Portinari.


DISQUISIÇÃO NA INSÔNIA
Que é loucura: ser cavaleiro andante
ou segui-lo, como escudeiro?
De nós dois, quem o louco verdadeiro?
O que, acordado, sonha doidamente?
O que, mesmo vendado,
vê o real e segue o sonho
de um doido pelas bruxas embruxado?
Eis-me, talvez, o único maluco,
e me sabendo tal, sem grão de siso,
sou – que doideira – um louco de juízo.


Carlos Drummond de Andrade

Uma homenagem a Catherine, Jules, e Jim.

quinta-feira, 27 de março de 2008

Boca







Boca é teu nome
Cru é teu ser.
Gosto em teu som,
Lampejo e fenecer.

Teu riso explode
Alheia raiva, pranto.
Qual Sereia em canto.

Encanto de boca que crava,
Que se desobriga da palavra.
Encanto de boca de dentes.

Boca de carne,
Boca de mármore.
Beijo-macaca
Boca rol in actu.

domingo, 23 de março de 2008

As Curvas de Niemeyer na Praça da Liberdade, a Lua e os Versos do Drummond



Foto de um início de tarde triste na Praça da Liberdade.



As montanhas escondem o que é Minas


Ninguém sabe Minas


Só os mineiros sabem


E não dizem nem a si mesmos o


irrevelável segredo chamado Minas
Carlos Drummond de Andrade

sábado, 22 de março de 2008

Vladimir Maiakoviski


"Nos demais, todo mundo sabe,
o coração tem moradia certa,
fica bem aqui no meio do peito,
mas comigo a anatomia ficou louca,
sou todo coração".



Como sempre repete um grande amigo: a vida não é racional!!!



No link abaixo, Jorge Mautner cita o poema anterior em seu video "Herói das Estrelas".

http://www.youtube.com/watch?v=ef0olhk00T4&feature=related

sexta-feira, 21 de março de 2008

O Defunto - Pedro Nava






O Defunto


Quando morto estiver meu corpo,
Evitem os inúteis disfarces,
Os disfarces com que os vivos,
Só por piedade consigo,
Procuram apagar no Morto
O grande castigo da Morte.

Não quero caixão de verniz
Nem os ramalhetes distintos,
Os superfinos candelabros
E as discretas decorações.

Quero a morte com mau-gosto!

Dêem-me coroas de pano,
Angustiosas flores de pano,
Enormes coroas maciças,
Como enorme salva-vidas,
Com fitas negras pendentes.

E descubram bem minha cara:
Que a vejam bem os amigos.
Que não a esqueçam os amigos
Que ela ponha nos seus espíritos
incerteza, o pavor, o pasmo.
E a cada um leve bem nítida
A idéia da própria morte.

Descubram bem esta cara!

Descubram bem estas mãos
Não se esqueçam destas mãos!


Meus amigos, olhem as mãos!
Onde andaram, que fizeram,
Em que sexos demoraram
Seus sabidos quirodáctilos?

Foram nelas esboçados
Todos os gestos malditos:
Até os furtos fracassados
E interrompidos assassinatos.

- Meus amigos! olhem as mãos
Que mentiram às vossas mãos...
Não se esqueçam!
Elas fugiram
Da suprema purificação
Dos possíveis suicídios.

- Meus amigos, olhem as mãos!
As minhas e as vossas mãos!

Descubram bem minhas mãos!

Descubram todo o meu corpo.
Exibam todo o meu corpo,
E até mesmo do meu corpo
As partes excomungadas,
As sujas partes sem perdão.

- Meus amigos, olhem as partes...
Fujam das partes,
Das punitivas, malditas partes...

Eu quero a morte nua e crua,
Terrífica e habitual,
Com o seu velório habitual.

- Ah! o seu velório habitual!

Não me envolvam em lençol:
A franciscana humildade
Bem sabeis que não se casa
Com meu amor da Carne,
Com meu apego ao Mundo.

Eu quero ir de casimira:
De jaquetão com debrum,
Calça listrada, plastron...
E os mais altos colarinhos.

Dêem-me um terno de Ministro
Ou roupa nova de noivo...
E assim solene e sinistro,
Quero ser um tal defunto,
Um morto tão acabado,
Tão aflitivo e pungente,
Que sua lembrança envenene
O que resta aos amigos
De vida sem minha vida.

- Meus amigos, lembrem de mim.
Se não de mim, deste morto,
Deste pobre terrível morto
Que vai se deitar para sempre
Calçando sapatos novos!
Que se vai como se vão
Os penetras escorraçados,
As prostitutas recusadas,
Os amantes despedidos,
Como os que saem enxotados
E tornariam sem brio
A qualquer gesto de chamada.

Meus amigos, tenham pena,
Senão do morto, ao menos
Dos dois sapatos do morto!
Dos seus incríveis, patéticos
Sapatos pretos de verniz.
Olhem bem estes sapatos,
E olhai os vossos também.


Trechos excepcionais:
"A morte com mau-gosto!"
"Coroas como enormes salva-vidas"!

"Descubram bem essa cara"!

"Meus amigos olhem as mãos,
as minhas e as vossas.
...Lembrem de mim!"

"Que sua lembrança envenene
O que resta aos amigos"
De vida sem minha vida"

"Olhem bem estes sapatos,
e olhai os vossos também"!


Espetáculo!!!!

Mineiro, médico, modernista, nobre aluno da Faculdade Medicina da UFMG!